O Poema Em Que Pessoa “Sucumbiu” Às Memórias de Infância

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Efabulador com poucos, “cerebralizador” das suas emoções como ninguém, nem assim Fernando Pessoa foi capaz de escapar ao imprevisto ressalto da saudade e das emoções em carne viva. O episódio mais flagrante e belo desta humanidade do “poeta fingidor” verteu-se para o papel em Setembro de 1935, pouco mais de dois meses antes da sua morte.

Bastou-lhe ouvir , na rádio, uma peça de piano perdida no tempo, para que Fernando Pessoa não resistisse à recordação das memórias de infância. «Un Soir à Lima» cruzou o éter, nas ondas da recém-inaugurada Emissora Nacional, e catapultou instantaneamente Pessoa para os anos felizes de Durban, na hoje África do Sul, aos serões de família, com a sua mãe ao piano.

Indirectamente, o “culpado” por estas memórias – e pelo extenso poema do ortónimo que abaixo reproduzo – foi compositor belga Félix Godefroid (24 de Julho de 1818 – 12 Julho de 1897), hoje obscuro, mas então sobejamente afamado na Europa continental, especialmente devido às suas criações para harpa e para piano, além das suas missas e óperas.

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UN SOIR À LIMA

Vem a voz da radiophonia e dá
A noticia num arrastamento vão:
“A seguir
Un Soir à Lima“…

Cesso de sorrir…
Pára-me o coração…

E, de repente,
Essa querida e maldicta melodia
Rompe do apparelho inconsciente…
Numa memoria subita e presente
Minha alma se extravia…
O grande luar da Africa fazia
A encosta arborizada reluzente.

A sala em nossa casa era ampla, e estava
Posta onde, até ao mar, tudo se dava
À clara escuridão do luar ingente…
Mas só eu, à janella.
Minha mãe estava ao piano
E tocava…
Exactamente
“Un Soir à Lima”.

Meu Deus, que longe, que perdido, que isso está!
Que é do seu alto porte?
Da sua voz continuamente acolhedora?
Do seu sorriso carinhoso e forte?
O que hoje ha
Que m’o recorda é isto que oiço agora
Un Soir à Lima.

Prossegue na radiophonia
A nossa, a sua melodia
O mesmo “Un Soir à Lima”.

Seu cabelo grisalho era tam lindo
Sob a luz
E eu que nunca pensei que ella morresse
E me deixasse entregue a quem eu sou!
Morreu, mas eu sou sempre o seu menino.
Ninguem é homem para a sua mãe!

E inda atravez de lagrimas não falha
Á memoria que tenho
O recorte perfeito de medalha
D’aquelle perfeitissimo perfil.
Chora, ao lembrar-te, mãe, romana e já grisalha,
Meu coração sempre infantil.
Vejo teus dedos no tèclado e ha
Luar lá fóra eternamente em mim.
Tocas em meu coração, sem fim,
Un Soir à Lima.

O silencio fatal das coisas findas
As tuas mãos pequenas e tam lindas
Com escrupulo risonho e familiar
Com um sorriso em que não ha
Nada senão o eternamente humano
Tiravas da quietude do piano
Un Soir à Lima.

Tinhas, perfil, um rosto de medalha
Eras de frente, e olhando, a minha mãe
Como hoje o teu olhar me falha
E o teu perfil me lembra bem

“Os pequenos dormiram logo?”
“Ora, dormiram logo”.
“Esta está quasi a dormir”
E tu, sorrindo ao responder continuavas
O que tocavas —
Attentamente tocavas —
Un Soir à Lima.

Tudo que fui quando não era nada,
Tudo que amei e sei só em verdade
Que o amei por não ter hoje estrada,
Que tenha qualquer realidade.
Por não ter d’elle mais que a saüdade —

Tudo isso vive em mim
Por luzes, musica e a visão
Que não tem fim
D’essa hora eterna no meu coração,
Em que voltavas
A folha irreal da musica a tocar
E eu te ouvia e via
Continuar
A eterna melodia
Que está
No fundo eterno d’esta nostalgia
De quando, mãe, tocavas
Un Soir à Lima.

E o apparelho indifferente
Traz da emissora inconsciente
Un Soir à Lima.

Eu não sabia então que era feliz.
Hoje, que o já não sou, sei bem que o era.

“Esta tambem está a dormir…”
“Não está”
Ficámos todos a sorrir
E eu distrahidamente vou
Continuando a ouvir,
Longe do luar que ha
E que lá fora existe duro e só,

O que me faz sonhar sem o sentir,
O que hoje por que tenho de mim dó
Esse canto sem voz, teclado e brando
Que minha mãe estava tocando —
Un Soir à Lima.

Não ter aqui numa gaveta,
Não ter aqui numa algibeira,
Fechada, haurida, completa,
Essa scena inteira!
Não poder arrancar
Do espaço, do tempo, da vida
E isolar
Num logar
Da alma onde ficasse possuida
Eternamente
Viva, quente,
Essa sala, essa hora,
Toda a familia e a paz e a musica que ha
Mas real como alli está
Ainda, agora,
Quando, mãe, mãe, tocavas
Un Soir à Lima.

Mãe, mãe, fui teu menino
Tam bem dobrado
Na sua educação
E hoje sou o trapo que o Destino
Fez enrolado e atirado
Para um canto do chão.

Jazo, mesquinho,
Mas ao meu coração
Sobe, num torvelinho
A memoria de quanto ouvi do que ha
No que ha de caricia, de lar, de ninho,
Ao relembrar o amor, hoje, meu Deus, sósinho,
Un Soir à Lima.

Onde é que a hora, e o lar e o amor está
Quando, mãe, mãe, tocavas
Un Soir à Lima?

E num recanto de cadeira grande
Minha irmã,
Pequena e encolhidinha
Não sabe se dorme se não.

Eu tenho sido tanta coisa vil!
Tenho trahido tanto do que sou!
Meu espirito sedento
De raciocinador subtil
Quantas vezes prolixamente errou!
Quantas vezes até o sentimento
Innaninadamente me enganou!

Já que não tenho lar,
Deixa me estar
Nesta visão
Do lar de então
Deixa-me ouvir, ouvir, ouvir —
Eu à janella
Do nunca mais deixar de sentir,
Nessa sala, a nossa sala, quente
Da Africa ampla onde o luar está
Lá fóra vasto e indifferente
Nem mal nem bem
E onde, no meu coração
Mãe, mãe
Tocas visivelmente,
Tocas eternamente
Un Soir à Lima.

A minha raiva de animal humano
A quem tiraram a mãe,
E não tem
Para o menino que lhe na alma ha,
Para lhe encher o coração,
Mais que esta visão —
As tuas mãos pequenas pelo piano
Quando, oh meu Deus, tocavas
Un Soir à Lima.

Ai, mas é engano.
Aqui sou velho
Não ha sala nem ha piano
Nem tu existes a tocar,
Ha um apparelho mudo
De onde um som vem de longe, e dóe
Como é que eu te darei um beijo agora?

Eu poderia, vindo da janella,
Como tantas vezes fiz
/* /

O raciocinador exacto
Cuja alma está em mil pedaços,
Em mil pedaços que nem ha…
Deixa-me dormir
E sonhar de estar vendo, a ouvir,
Un Soir à Lima.

E era nesta calma,
Nesta felicidade
Em que existia uma alma
(Meu Deus, que saudade!),
Que, sob a luz que dourava,
(Hoje onde é que isso está?)
Longe de onde o luar prateava,
Minha mãe tocava
Medalha attenta e humana ao piano,
Un Soir à Lima.

Desde então
Tenho atravessado
Muitas vidas.
As mais das vezes tenho errado.
Meu coração
Pesa de coisas esquecidas.
Desde quando
Nesse brando
Conforto do meu lar extincto
Eu, à janella, ouvia, hirto e sonhando,
Ermo e indistincto,
O que ha
Em toda a musica de intuição e instincto,
Quanto tenho deixado morrer
Dentro do que quiz ser,
Quanto tenho deixado
Só pensado,
Quanto, quanto,
Tem sido para mim sòmente sonho,
Sòmente o encanto,
Tristemente risonho
De o ter sonhado,
Quem sabe se a saudade
Transmutada num devaneio meio humano
De quanto nessa noite está,
Longiqua, em que, mamã, ao piano
Tocavas, sob a crua claridade,
Un Soir à Lima.

Pesa-me o coração. Um torpor denso
Occupa-me a consciencia de 
E um frio informe, desolado e denso
Não me deixa pensar.

Num baloiçar-me, num embalar
Relembro tudo, relembro em vão.
Meu Deus, isso tudo onde está?
Un Soir à Lima
Quebra-te, coração!…

Meu padrasto
(Que homem! que alma! que coração!)
Reclinava o seu corpo basto
De athleta socegado e são
Na poltrona maior
E ouvia, fumando e scismando,
E o seu olhar azul não tinha cor.
E minha mãe, creança,
No recanto da sua poltrona
Enrollada, ouvia a dormir
E a sorrir
Que estava alguem tocando
Se calhar uma dança…

E eu, de pé, ante a janella
Via todo o luar de toda a Africa innundar
A paisagem e o meu sonho.

Onde tudo isso está!
Un Soir à Lima
Quebra-te, coração!

Essa mão pequenina e branca,
Que nunca mais me affagará,

Sorrias, rindo, para mim
Esse sorriso que já teve fim,
E continuavas tocando
Un Soir à Lima.

E eu que /*nunca pago/ † † †
E a † só † o que eu sou…

E é uma emissora indifferente
Que por um apparelho inconsciente
Em musica, só, musica me dá
A angustia viva que me vem
De te ver, por me lembrar,
Minha mãe, minha mãe,
Tam tranquilla, tocar
Un Soir à Lima.

Mas entorpeço.
Não sei se vejo, se adormeço,
Se sou quem fui,
Não sei se lembro, nem se esqueço.
Ha qualquer coisa que indistincta flue
Entre quem sou e o que eu era
E é como um rio, ou uma brisa, ou um sonhar,
Qualquer cousa que não se espera,
Que se suspende de repente
E, do fundo onde ir acabar,
Surge, cada vez mais distinctamente,
Num halo de suavidade
E nostalgia,
Onde o meu coração ainda está,
Um piano, uma figura, uma saudade…
Durmo encostado a essa melodia —
E oiço que minha Mãe toca,
Oiço, já com o sal das lagrimas na bocca,
Un Soir à Lima.

O veu das lagrimas não cega.
Vejo, a chorar,
O que essa musica me entrega —
A mãe que eu tinha, o antigo lar,
A criança que fui,
O horror do tempo porque flue,
O horror da vida, porque é só matar.
Vejo, e adormeço
E no torpor em que me esqueço
Que existo ainda neste mundo que ha…
Estou vendo minha mãe tocar.
Essas mãos brancas e pequenas,
Cuja caricia nunca mais me affagará,
Tocam ao piano, cuidadosas e serenas,
Un Soir à Lima.

Ah, vejo tudo claro!
Estou outra vez alli.
Afasto do luar externo e raro
Os olhos com que o vi.

Mas quê? Divago, e a musica acabou…
Divago como sempre divaguei
Sem ter na alma certeza de quem sou,
Nem verdadeira fé ou firme lei.

Divago, crio eternidades minhas
Num opio de memoria e de abandono.
Enthronizo fantasticas rainhas
Sem para ellas ter um throno.

Sonho porque me banho
No rio irreal da musica evocada.
Minha alma é uma criança esfarrapada
Que dorme num recanto obscuro.
De meu só tenho,
Na realidade certa e acordada,
Os trapos da minha alma abandonada
E a cabeça que sonha ao pé do muro.

Mas, mãe, não haverá
Um Deus que me não torne tudo vão,
Um outro mundo em que isso agora está?
Divago ainda: tudo é illusão.
Un Soir à Lima

Quebra-te, coração…

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[17-9-1935]

Fernando Pessoa, Poemas de 1934-1935, edição de Luís Prista, Lisboa, INCM, 2000

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